A prudência (= cautela, precaução) é uma das virtudes cardeais da Antiguidade e da Idade Média. O filósofo Kant não via nela uma virtude, “é apenas amor a si esclarecido ou hábil, não condenável, decerto, mas sem valor moral e sem outras prescrições”. Ex.: é prudente cuidar da saúde, mas que mérito há nisso? A ética da responsabilidade quer que respondamos não apenas com nossas intenções ou nossos princípios, mas também pelas conseqüências de nossos atos. Isso é a chamada ética da prudência.
Para Aristóteles, a prudência refere-se a uma virtude intelectual, pelo fato de haver-se com o verdadeiro, com o conhecimento, com a razão: “a prudência é a disposição que permite deliberar corretamente sobre o que é bom ou mau para o homem”. É o que podemos chamar de bom senso. Aplica-se ao uso de uma inteligência que seria virtuosa.
De acordo com Santo Tomás de Aquino, das quatro virtudes cardeais (a saber: a temperança, a prudência, a coragem e a justiça), a prudência é a que deve reger as outras três. A prudência não reina, mas governa. E o que seria um reino sem governo? Não basta amar a justiça para ser justo, nem amar a paz para ser pacífico. É preciso, além disso, a boa deliberação, a boa decisão, a boa ação. A prudência decide. A própria sabedoria não poderia prescindir dela. Sem ela, seria uma sabedoria louca, em síntese, não seria sabedoria.
Para Epicuro, a Prudência que escolhe (pela “comparação e pelo exame das vantagens e desvantagens”) os desejos que convém satisfazer e os meios para satisfazê-los, é “mais preciosa até que a filosofia” e é dela que “provém todas as outras virtudes”. Qual a importância da verdade se não sabemos viver? Que importa a justiça se somos capazes de agir injustamente? A Prudência é como um saber viver real, que leva em conta o futuro, na medida em que depende de nós encará-lo. A pessoa prudente é atenta, não apenas ao que acontece, mas ao que pode acontecer; é atenta e presta atenção. Prudentia, observa Cícero, vêm de providere, que significa tanto prever como prover. A Prudência é antes de tudo, o desejo lúcido e razoável.
A Prudência dos antigos (phronésis, prudentia) vai, portanto, bem além da simples evitação dos perigos. Ela determina o que é necessário escolher e o que é necessário evitar. De acordo com Kant, a Prudência aconselha. A Prudência só é virtude quando a serviço de um fim estimável. Por isso, dizia Aristóteles, “não é possível ser homem sem prudência, nem prudente sem virtude moral”.
A sexualidade sem prudência é sexualidade sem virtude, ou cuja virtude, é manca. O pai imprudente, diante de seus filhos, pode muito bem amá-los e querer sua felicidade. No entanto, falta alguma coisa à sua virtude de pai e, sem dúvida, a seu amor. “A Prudência”, dizia Santo Agostinho, “é um amor que escolhe com sagacidade (= astúcia)”.
* José Geraldo Soares Barbosa é jornalista, formado também em Filosofia pela PUC-MG e Teologia pelo Seminário Provincial do Coração Eucarístico de Jesus, de Belo Horizonte-MG.




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