Como a Patrulha da Alegria, inspirada na obra do médico Patch Adams, muda a realidade em Sete Lagoas
Por Caio Pacheco. Repórter
Parados à entrada do quarto do hospital, na UTI, policiais militares e outros homens fazem a segurança do paciente. O estado dele é grave. Levou um tiro que atingiu a coluna, quase o matou. Seus inimigos o juram de morte, mesmo dentro de uma unidade de saúde. Dramático e triste, muito mais quando se trata de uma criança de 10 anos. Por alguns instantes, dias, semanas, pelo menos, o menino se encontra com a felicidade. Melhor dizendo, com a Patrulha da Alegria. Esta cena marca os olhos, a memória e o coração de Vitória Botelho, uma das integrantes do grupo que leva amor, paz e esperança para crianças, jovens e adultos em hospitais, creches, asilos e favelas. Onde a vida está em risco, os palhaceiros da Alegria estão lá para ressuscitar o prazer em viver.
Vitória – nome que vem do latim, “aquela que vence” – explica que casos como o narrado acima – para ela um dos mais emblemáticos que viveu – mostra que a Patrulha da Alegria enxerga o mundo com outra perspectiva. “É o olhar da criança. É a inocência”, afirma. “Ser palhaço é exteriorizar a criança que você é e não deve morrer nunca”, completa.
Na Patrulha da Alegria, a principal palavra é humanização. Tanto que a trajetória desses “anjos da felicidade” começou exatamente em um ambiente carente disso – os hospitais. “O que fazemos, recebemos em dobro”, assegura Vitória. Ela, a fundadora Andréa Godinho e mais 14 pessoas que ficam na escala para atendimento aprendem e ensinam uma lição simples e fundamental para viver. “Um sorriso para outro sorriso”, discorre Vitória para explicar porque pessoas doentes e também em risco social conseguem despertar para a vida com a presença da Patrulha da Alegria, ainda que o ambiente em que estejam seja ríspido, agressivo, tristonho. Até a Patrulha chegar, claro. Aliás, a trupe vai ganhar uma importante parceria. Trata-se de Rodrigo Obleño, artista do Cirque du Soleil.
A arte da felicidade - A regra do sorriso se aplica aos adultos também. E como! Nenhum palhaceiro da Alegria entra em um quarto de hospital sem a permissão do paciente. Até porque esta é a rotina em que vivem todos os dias, com os profissionais de saúde entrando e saindo do quarto para cumprirem sua missão – salvar o paciente da doença, da morte, ainda que o façam de forma incisiva e invasiva. A Patrulha entende isso, e pede licença. O resultado é natural. “O adulto se permite ser criança”, observa Vitória. O que fazer no quarto do hospital é pensado e intuitivamente feito. Observa-se o ambiente, o que nele tem. Até porque o exagero do palhaço de circo não é o que ocorre com o palhaceiro da Alegria. O primeiro tem gestos extravagantes, o palco é grande. O segundo tem gestos contidos, o espaço é mínimo. “É a arte do improviso”, revela.
Você, eu ou nós? – No mundo globalizado, em que as palavras de ordem são competitividade, metas e consumo, a Patrulha da Alegria constata que “o eu é hiper”. Erro. “Quando a gente lembra que além do eu há o outro, que ele está ali, tudo fica mais simples”, teoriza Vitória, com os olhos brilhantes e o sorriso aberto, bonito. Esta é a feição da palhaceira da Alegria do início ao fim de nossa entrevista. É tão natural que nem ela percebe. Eu digo para ela. Sim, é a felicidade guardada na alma e refletida na face.
O que diferencia os cidadãos comuns – nós – dos palhaceiros da Alegria, pergunto para Vitória. Com simplicidade, ela responde com clareza: a maneira como vemos a vida em seus detalhes. Para ela, Andréa Godinho e os outros irmãos da turma, a vida nunca mais foi a mesma depois da Patrulha da Alegria. A felicidade de antes é maior do que a de hoje? “Nunca”, responde. Ato contínuo, ela mostra a veia, dos olhos saem lágrimas de emoção. Respira. Pensa. Arremata. Aponta para a veia e finaliza: “Entranhou”.
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Vitória Botelho – 9767-7601






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