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quinta-feira, 11 de agosto de 2011 - 12h00 - Caio Pacheco

“O livro de Isis”, trajetória de amor às letras


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Obra vai além da biografia; resgata e valoriza a educação e a cultura na formação da sociedade.

“Escrevo no compasso de minha vontade”, revela, com voz doce, a professora Isis da Silva Oliveira, em entrevista por telefone para METROPOLI. “O livro de Isis” é o resultado de experiências pessoais e coletivas vividas pela autora, personalidade marcante, tanto quanto a decisão de lançar, pela primeira vez na vida, aos 78 anos, o primeiro livro. Nele, uma coletânea de textos que registram sua vocação e amor pelas letras ao longo da vida, como descreve a filha e jornalista Heloísa Aline de Oliveira.

livrodeisis“Há de tudo. Infância, versos, poesias, reflexões pessoais”, conta Isis, com exclusividade, para METROPOLI. “Acho que nasci escrevendo”, brinca a escritora, ao relembrar momentos como os primeiros textos, feitos precocemente aos 5 anos de idade. O berço em que nasceu e uma personagem marcante, a mãe, foram fundamentais.

Neste clima, a pequena Isis descobria o prazer em ler. Portanto, em escrever. Os verbos, conjugados, revelam o que é Isis – ler e escrever é o prazer em viver. “A leitura é enriquecedora, capaz de fazer milagres”, ensina a professora, formada em Letras, outro sonho realizado. Em tempo: o destino de Isis poderia ter sido diferente, não fosse a mãe “uma amante da boa leitura”, completa.

Toda essa carga emotiva – a vida de professora, de sindicalista que ousou bater de frente com a ditadura militar empunhando apenas a coragem no peito e frases articuladas e firmes nos lábios durante a repressão à greve histórica dos professores em 1979 – está presente em “O livro de Isis”. A obra será lançada em Sete Lagoas no dia 20 de agosto, às 15h, na Casa da Cultura. Em seguida, na livraria Mineiriana, em BH, no dia 24.

O livro tem prefácio do ex-ministro de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, amigo de longa data, é dividido em seis capítulos e reúne parte da produção intelectual da educadora – são contos, crônicas, poesias, dramaturgia e discursos. Como ressalta Ananias, “o livro de Isis bem que podia ser chamado de um livro se sentimentos. Sentimentos profundos, sim, da alma humana. Mas, sobretudo sentimentos de mulher. Por isso, talvez seja tão mais coerente o nome dado. Isis está nesse livro”.

Patrocinado pelo Sinpro-MG – Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais -, ele é apresentado também por Gilson Reis, presidente da associação, e pela intelectual Mariza da Conceição Pereira, do Clube de Letras de Sete Lagoas e da Academia Selelagoana de Letras, outra fiel amiga da educadora, que acompanhou sua trajetória pessoal e profissional.

O penúltimo capítulo – Tributo a Isis – mostra depoimentos de pessoas importantes na vida da escritora – filhos, netos, amigos, admiradores, profissionais da área de educação e das Letras, companheiros de militância política, como a deputada federal Jô Moraes.

O último engloba fotos de Isis, da infância a viagens que fez pelo mundo, momentos com a família, artistas, amigos novos e antigos.

A organização da obra ficou a cargo da professora Bernadetth Maria Pereira, o projeto gráfico é de Patrícia Magda Souza Rocha e as ilustrações são assinadas pela artista plástica Marina Jardim.

Tão marcante quanto lançar o primeiro livro aos 78 anos de idade é o que o livro traz para o leitor, que ficará surpreso ainda que conheça a trajetória educadora e libertária de Isis da Silva Oliveira. Na entrevista exclusiva para METROPOLI, ela revela-se e revela para os amantes da vida e da literatura o que as letras proporcionam para todos – autores e admiradores. “O dia de maior satisfação de minha vida foi quando recebi a visita de um senhor semi-analfabeto. Dei a ele alguns livros. Ele os abraçou e, emocionado, perguntou: ‘são todos para mim?’. Sim, eram. Uma vida mudou com livros. Como é de se esperar que aconteça no dia 20 em Sete Lagoas e 24 em Belo Horizonte. Ao lerem a inédita obra de Isis, amigos, admiradores e leitores abrirão uma nova página em suas vidas – um reencontro com Isis e com suas próprias histórias, registradas com sensibilidade e verdade por uma professora que faz das letras a sua razão de viver.

Carreira

Formada em contabilidade pela Escola Estadual Maurílio de Jesus Peixoto, a verdadeira paixão de Isis sempre foi o magistério: das aulas particulares ministradas em sua casa, passou a lecionar português e francês em conceituados colégios de Sete Lagoas e a atuar na vida cultural e assistencial da cidade.

Implantada a faculdade em Sete Lagoas, já no exercício da sala de aula, casada e com filhos, matriculou-se como aluna do curso de Letras, no qual se graduou, realizando um grande sonho.

isislivroIntegrante do Clube de Letras de Sete Lagoas, tendo como patrono o poeta Cruz e Souza, a professora apresentava, nas reuniões semanais da associação, nas tardes de sábado, seus trabalhos literários, introduzindo, por várias vezes, os novos clubistas, com discursos que estão registrados nesse livro. O seu carisma e grande coração, incentivando os novos talentos, fez com que seus pares a elegessem “Mãe Intelectual do Clube de Letras – a mãe Isis. E, ao tomar posse na Academia Setelagoana de Letras, escolheu como patrona a escritora mineira Maria Helena Ribeiro. Secretária municipal de Educação e Cultura, primeiro no governo do prefeito Sérgio Emílio de Vasconcelos Costa, e depois no de Afrânio Marques de Avelar, ergueu e vitalizou várias escolas da zona rural de Sete Lagoas.

Nessa época, trouxe à Sete Lagoas os mais expressivos espetáculos e artistas, como a soprano Lia Salgado, a flautista internacional Odette Ernest Dias, o também internacional Jacques Klein, o Quarteto de Cordas e o Balé Stagium, ambos de São Paulo, entre outras atrações.

Quando o Festival de Inverno de Ouro Preto começou sua itinerância por cidades do interior, a secretária encampou o movimento cultural sediando-o também em Sete Lagoas, numa programação que incluía vários cursos e manifestações artísticas.
Preocupada com a população carente, que não tinha acesso aos estudos, engajou-se na CNEG – Campanha Nacional de Educandários Gratuitos, cujo objetivo, como diz o próprio nome da sigla, era criar colégios com educação gratuita, fundando e edificando, junto a uma turma de beneméritos, o Colégio Márcio Paulino, onde também foi professora.

Assistência social

Além da área educacional, Isis teve grande participação em eventos assistenciais da cidade. Junto à dona Helena Rodrigues Branco, presidente da LBA – Legião Brasileira de Assistência – empenhou-se em várias ações, entre elas o da criação do SPIA – Serviço de Proteção à Infância e Adolescência – implantando oficinas de capacitação para esses públicos.

O projeto foi embrionário para a criação das Oficinas do Serpaf – Serviço Promocional de Assistência à Família -, entidade também voltada para o atendimento de crianças e adolescentes de Sete Lagoas.

Na década de 1980, a educadora, com o objetivo de acompanhar os estudos dos filhos, foi morar em Belo Horizonte, onde atuou como professora e cursos da capital mineira.

Sua capacidade de trabalho e vitalidade a levaram para o Sinpro – Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais, integrando a sua diretoria “juntamente com um grupo de professores e professoras combativos”, como afirma o atual presidente da associação, Gilson Reis, em seu texto de apresentação de O livro de Isis.

Lá, lutou bravamente em defesa da classe, ajudando “a resgatar a entidade para um profícuo ciclo de sindicalismo classista e de luta, comprometido com as reivindicações da categoria”.

Há quatro anos, em busca de suas origens, Isis resolveu retornar à cidade natal, escolhendo o bairro da Boa Vista, onde nasceu, cresceu, criou os filhos e mantém grandes amizades, para morar.

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