Se os brasileiros já se acostumaram, ainda que a contragosto, aos números cada vez mais alarmantes da dengue no país, devem se preparar: a situação pode ser ainda pior. O ano de 2010 pode ser tornar outro marco de epidemia brasileira, com alta incidência na contaminação e casos cada vez mais graves. O motivo, segundo alertam especialistas, é a predominância do tipo 1 da dengue, que depois de 10 anos sem ser o sorotipo mais atuante, volta com vitalidade capaz de causar situações epidêmicas em cidades onde a população já estava praticamente imunizada. Sinais não faltam para confirmar o quadro preocupante. Só em Minas Gerais, o número de pessoas com suspeita de contaminação este ano aumentou em 89% em relação às três primeiras semanas de 2009, quando o tipo 2 era a predominância.
“O medo é com aqueles que estão suscetíveis a esse tipo, como as crianças de até 10 anos”, alerta a pesquisadora visitante do Departamento de Virologia e Terapia Experimental do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (CPqAM)/Fiocruz Pernambuco, Marli Tenório Cordeiro. Em Minas, há muito tempo o tipo 1 estava sumido, aliás, agia timidamente. De acordo com dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES), em 2009, das 233 amostras analisadas isoladas e positivas para a dengue, 46 foram para o tipo 1; 73 para o tipo 2; e 114 para o tipo 3. Ainda que o ano esteja apenas começando, a gerente de Vigilância Ambiental da SES, Talita Chamone, diz que das 37 amostras positivas, 31 foram do tipo 1; quatro para o tipo 2, e duas para o tipo 3.
“A preocupação não é só com o tipo 1. O agravante é que temos três vírus circulando, o que eleva o número de casos e acentua as formas graves da dengue. Se determinada parcela da população de uma cidade que foi alvo do tipo 2, se tornou imune a ele. Mas, com outro sorotipo, essas pessoas estão mais sensíveis e podem adoecer de novo, com chance de desenvolver a doença com mais gravidade”.
No Brasil, três sorotipos do vírus circulam nos últimos anos. No entanto, desde 2000 a predominância na contaminação tem sido pelos tipos 2 e 3. “O tipo 1 sempre esteve circulando. Mas é como se ele estivesse escondido”, explica o pesquisador do departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Flávio Guimarães da Fonseca, ressaltando que as pessoas contaminadas nos últimos anos foram criando resistência ao 2 e 3. “Depois de 10 anos, nasceram mais pessoas, que estão suscetíveis ao tipo 1, assim como aquelas que foram contaminadas apenas pelos tipo 2 e tipo 3. E esse é o perigo, porque uma segunda infecção pode ser mais grave para elas”, avisa.
“É a vez do tipo 1”, enfatiza Marli Tenório, explicando todo o histórico da dengue no país. “Tudo começou em 1987, quando no ano anterior a dengue 1 chegou ao Rio de Janeiro. Depois de dois anos, atingiu todo o país inteiro, embora ninguém tenha morrido e nem tenha havido complicações da doença. Em 1990, foi a vez do tipo 2 chegar ao Rio, e começaram a surgir casos de dengue hemorrágica e óbitos. O novo tipo não foi mais forte. O agravante foi que circulavam dois tipos e, aqueles que tiveram o primeiro, correram mais riscos das formas graves com o segundo”, diz a pesquisadora, contando que foi em 2000 que surgiu o tipo 3, também no estado fluminense. “Mas foi em 2002, que ele se tornou predominante, chegando a infectar nada menos do que 800 mil pessoas”, acrescenta Flávio Guimarães.
“Desde então, os tipos 2 e 3 estão alternando a predominância, o que tem feito com que as pessoas se tornem cada vez mais imunes ao mosquito, no entanto, com a predominância do 1 novamente , uma epidemia pode estourar a qualquer momento”, alerta Marli, acrescentando que essa alternância dos vírus causa, a cada quatro anos, novas epidemias. “Pode ser que 2010 seja um desses marcos.”




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