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quarta-feira, 18 de junho de 2008 - 10h37 - da Redação

CineOP encerra sua 3ª edição confirmando vocação para a preservação e discussão da história do cinema brasileiro


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Revisão das obras de Glauber e Sganzerla e criação da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual foram os principais destaques desta edição

A CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto encerrou sua terceira edição nesta terça-feira, consolidando-se como o fórum privilegiado de discussão e encaminhamento de reflexões e ações para a preservação do patrimônio audiovisual brasileiro, além de ter se posicionado como espaço para a revisão e debate de momentos e personalidades do cinema brasileiro, sem o pudor de revisitar e, se necessário, questionar mitos e afirmações consolidadas da historiografia oficial.

Em sua temática histórica, a 3ª CineOP debruçou-se sobre a obra e as relações entre Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, através de homenagens, debates, sessões de clássicos desses diretores produzidos nos anos 60 e a exibição de filmes contemporâneos que focam a figura e os filmes desses dois diretores. “Esta aproximação entre Glauber Rocha e Rogério Sganzerla proposta pela Mostra de Ouro Preto é nova e revolucionária”, afirmou a atriz Helena Ignez, externando um sentimento que ecoou em declarações de outros convidados, como Paloma Rocha, Noilton Nunes e Djin Sganzerla.

O debate “Glauber Rocha e Rogério Sganzerla: Inventividades dos Anos 60” contou com a participação da atriz Helena Ignez e dos cineastas Andrea Tonacci e Joel Pizzini, que testemunharam as aproximações existentes não apenas na obra, mas na vida pessoal dos homenageados Glauber Rocha e Rogério Sganzerla.

O diretor Joel Pizzini, que nos últimos anos tem se dedicado à recuperação e documentação da obra de Glauber, levantou em sua fala uma série de aproximações entre as obras dos dois diretores – como a utilização de métodos brechtianos em seus filmes, a paixão pela música e a admiração pelo cineasta americano Orson Welles – bem como falsas oposições que, segundo ele, são desmentidas pelos filmes (herói x anti-herói, alta cultura x baixa cultura, nacional x internacional).

“Há um intercâmbio entre Glauber e Rogério. Não é uma via de mão única. Há sim um diálogo tenso entre os dois diretores, mas no sentido criativo, de exercício da polêmica como atitude política”, explica Pizzini. “A poeira baixou e a gente pode analisar tudo isso sem se contaminar pelo contexto. Nesse sentido, a CineOP foi a primeira manifestação que teve a ousadia de fazer essa aproximação entre Glauber e Rogério”.

Já o cineasta Andrea Tonacci, que juntamente com Rogério Sganzerla e Julio Bressane foi um dos maiores expoentes do chamado Cinema Marginal, relembrou com emoção aquele período dos anos 60: “Fazia-se cinema para mudar o mundo, não para ganhar dinheiro ou ocupar mercado. Devo a Rogério essa compreensão de que o cinema era um instrumento de descoberta, de transformação do mundo. O cinema como um processo vital, não funcional”.

Entre as histórias de aproximação entre Glauber e Sganzerla contadas por Tonacci, a que mais divertiu a platéia foi a de uma viagem de São Paulo ao Rio de Janeiro. “Fomos de Fusca para o Rio de Janeiro: eu dirigindo, Rogério no banco do passageiro e Glauber atrás, com a cabeça enfiada no meio de nós e falando sem parar durante as seis horas de viagem. Foi assim que ouvimos, em primeira mão, toda a história de Terra em Transe”.

O segundo debate da temática histórica, “Os Anos 60 Além do Cinema Novo”, teve na mesa os cineastas Walter Lima Jr e Geraldo Veloso e os pesquisadores José Américo Ribeiro e Rubens Machado Jr para discutir toda uma produção da década de 60 que ficou relegada ao esquecimento histórico, à sombra do Cinema Novo. Ao longo do debate, destacou-se principalmente a importância fundamental de se reavaliar mesmo os filmes e períodos ignorados pelos críticos da época, numa produção que incluía chanchadas tardias, filmes de cangaço e policiais.

O último debate, intitulado “O Cinema Brasileiro Moderno: Heranças e Rupturas nos Anos 2000”, trouxe para a discussão a nova geração do cinema brasileiro – representada por Eryk Rocha, Pedro Paulo Rocha, Joel Pizzini, Daniel Caetano e Djin Sganzerla – para questionar a existência ou não de influências daquele cinema dos anos 60 na produção contemporânea. Entre as conclusões da mesa, houve a convicção de que a obra de certos cineastas, independentemente do período em que foram realizadas, ficam como forte referência para as novas gerações, se não como modelo estético, ao menos como atitude política em relação ao cinema e sua posição no mundo e na sociedade.

Associação Brasileira de Preservação Audiovisual nasce para representar e legitimar as instituições de preservação audiovisual espalhadas pelo país

A CineOP acolheu também em sua programação o 3º Encontro Nacional de Arquivos de Imagens em Movimento, que congregou 76 representantes de 54 arquivos presentes em 15 estados do país. Ao longo de três dias de debates e mesas de trabalho, a classe definiu suas demandas e as divulgou na Carta de Ouro Preto 2008 – tradicional documento assinado pelos participantes do Encontro que será apresentado ao Ministério da Cultura –, além de ter assinado a ata de fundação da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual.

“A ABPA surge com o compromisso de salva guarda do patrimônio audiovisual nacional, instrumento essencial e estratégico do desenvolvimento da sociedade e da cultura brasileira”, afirmou Hernani Heffner, colaborador da temática preservação da mostra e conservador-chefe da Cinemateca do MAM-RJ. Ficou definido também que Ouro Preto será sede, em 2009, do I Congresso Brasileiro de Preservação Audiovisual, evento que acontecerá anualmente dentro da programação da Mostra de Cinema de Ouro Preto.

Entre os debates ocorridos no 3º Encontro Nacional de Arquivos, o mais concorrido foi a mesa de abertura, intitulada “Política Nacional de Preservação Audiovisual: Necessidades e Desafios”, que contou com a presença de Sílvio Da-Rin, Secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Sérgio Sá Leitão, Diretor da Ancine – Agência Nacional do Cinema, Gustavo Dahl, Gerente do CTAV, Carlos Magalhães, Diretor da Cinemateca Brasileira e Neander de Oliveira César, Diretor do CRAV.

Durante o debate, o mediador Hernani Heffner divulgou uma cifra que impressionou as mais de 150 pessoas que lotaram o auditório do Centro de Convenções para acompanhar a discussão: aproximadamente 35% dos filmes já produzidos no país encontra-se irremediavelmente perdido, seja pela ausência de uma cópia conhecida, seja pelo estágio avançado de deterioração que impede seu restauro. “Se consideramos apenas os filmes do cinema mudo brasileiro, conseguimos preservar somente 7% do que foi produzido”, informou o mediador da mesa.

“É como se o cinema brasileiro fosse a Floresta Amazônica, em seu avançado estágio de desmatamento. Se não tomarmos medidas urgentes agora, nos tornaremos a Mata Atlântica”, afirmou Gustavo Dahl, referindo-se ao fato de que a taxa de preservação dessa vegetação nativa também gira em torno de 7%. Entre as proposições lançadas pela mesa, as que mais repercutiram foram a necessidade de manutenção e ampliação dos editais de restauro promovidos pela Cinemateca Brasileira, a alocação de parte dos recursos hoje investidos na produção para o financiamento de ações de preservação e restauro, e a possibilidade de tombamento dos principais filmes de nossa cinematografia.

Intensa programação de filmes contemporâneos e dos anos 60 atraiu mais de 25 mil pessoas a Ouro Preto durante o evento

A programação de filmes da edição deste ano levou a Ouro Preto 98 produções – entre longas, médias, curtas e vídeos – em 35 sessões, exibidas em três espaços da histórica cidade mineira: Cine-Teatro, Cine Vila Rica e Cine-Praça.

No núcleo histórico da programação, o destaque ficou por conta da homenagem aos dois grandes ícones do cinema brasileiro – Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. Como parte dessa homenagem, foram exibidos clássicos desses diretores produzidos nos anos 60 – Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe, de Glauber Rocha, e O Bandido da Luz Vermelha e A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla –, além de curtas-metragens como Pátio, estréia na direção de Glauber, e Documentário e HQ, de Sganzerla.

Uma platéia preponderantemente jovem e de universitários compareceu em grande número para acompanhar as sessões-homenagem, demonstrando o crescente interesse que a obra desses cineastas (que nos últimos anos vem tendo seus filmes restaurados e lançados em DVD) tem causado em uma nova geração de interessados pelo cinema brasileiro.

Já a programação contemporânea teve nos documentários sua principal face, com a exibição de filmes como Waldick, Sempre no Meu Coração, estréia na direção da atriz Patrícia Pillar; Margem, de Maya Da-Rin; Estafeta, de André Sampaio; A Etnografia da Amizade, de Ricardo Miranda; Tomba Homem, de Gibi Cardoso; Isto é Meu e Morrerá Comigo, de Fábio Carvalho; Anabazys, de Paloma Rocha e Joel Pizzini, e Diário de Sintra, de Paula Gaitán – estes dois últimos filmes debruçando-se sobre facetas pouco conhecidas da vida e da obra de Glauber Rocha.

“A presença dos documentários chama a atenção na programação, evidência de uma demanda de construção de memória cultural e de contato com universos ignorados. Descobrir o desconhecido e preservar valores da cultura brasileira são duas frentes bastante presentes na produção audiovisual do país em 2008 e, em uma mostra onde a preservação é o tema central, nada mais natural que o documentário, com seu inevitável apelo preservacionista, seja colocado em evidência”, afirmou Cléber Eduardo, crítico de cinema e responsável pela programação de longas e médias metragens.

A ficção, entretanto, também marcou presença em Ouro Preto com quatro longas-metragens. Os Desafinados, de Walter Lima Jr, foi exibido para um cinema lotado, deixando mais de 300 pessoas para fora em função da lotação da sala. Já Nossa Vida Não Cabe Num Opala, de Reinaldo Pinheiro (filme que levou cinco prêmios no 12º CinePE, incluindo o de Melhor Filme), confirmou seu forte apelo junto ao público, tendo sido aplaudido em cena aberta por um cinema lotado em sua exibição aqui em Ouro Preto. Completaram as ficções o polêmico O Fim da Picada, de Christian Saghaard, e a estréia nacional de Fronteira, do mineiro Rafael Conde, exibido na sessão de encerramento da Mostra.

A programação de curtas contou com 18 títulos divididos em quatro séries e a de vídeos exibiu 53 produções de nove Estados do país em cinco sessões, trazendo ao público de Ouro Preto a possibilidade de tomar contato com uma produção efervescente e raramente disponibilizada ao grande público.

Completando a programação, a já tradicional Mostrinha de Cinema (dedicada ao público infantil) exibiu dois longas – Garoto Cósmico, de Alê Abreu e Os Porralokinhas, de Lui Farias – e duas sessões com curtas e vídeos em animação. Já nas Sessões Cine-Escola, seguida de debates (para educadores e alunos das escolas da região), os longas exibidos foram os premiados O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, e Os 12 Trabalhos, de Ricardo Elias.

Além disso, um total de 250 alunos participantes das sete oficinas oferecidas este ano puderam ter acesso (pela primeira vez para muitos) ao fazer cinematográfico em diversas formas, possibilitando a desmitificação do que é o cinema e de como ele é realizado.

“Em apenas três anos, a CineOP se consolidou como um evento referencial do cinema brasileiro e estamos muito felizes e orgulhosos por ter contribuído para seu surgimento e consolidação nesse curto espaço de tempo”, afirmou o prefeito de Ouro Preto Angelo Oswaldo.

Para saber mais, acesse: www.cineop.com.br.

CINEOP – 3ª MOSTRA DE CINEMA DE OURO PRETO
12 a 17 de junho de 2008

Fonte: Assessoria de imprensa – Sinal de Fumaça.

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